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Uma singela homenagem àquele que por sua genialidade não só na composição e execução de obras magistrais de extrema brasilidade (eu disse brasilidade e não nacionalismo), mas sobretudo se dedicou intensamente à pesquisa musical e folclórica por todo este país e criou o projeto que levou a milhares de brasileiros a educação musical e artística. Um verdadeiro legado, foi o que Heitor Villa-Lobos nos deixou. Que nos digam Tom Jobim, Edu Lobo, Egberto Gismonti, Dona Ivone Lara, Chico, Paulinho, Milton, Gil, Caetano, Alceu... E todos nós, seus admiradores. Pena que nenhum artista depois dele teve sequer de perto a mesma dimensão, nem mesmo aqueles que participaram diretamente de governos. Villa-Lobos foi além de tudo, um grande educador, um visionário. Como faz falta algo assim: há 50 anos não se faz nada neste sentido no Brasil.
Agora em novembro, todo o mundo está celebrando os 20 anos da queda do Muro de Berlim, e fico me perguntando quantos muros – e grades pontiagudas – foram erguidos por aqui desde a década de 80. Incontáveis, e os piores deles não são os que enxergamos diariamente a olho nu, mas os que foram construídos ao longo do tempo dentro de cada um. Com tantos muros feitos para proteger, esconder, o que aflora nos dois lados das imensas paredes é a mentira, as frustrações, a discriminação, a agressão, a multiplicação da violência e da estupidez. Da defesa para o ataque se parte aqui com uma rapidez que faria inveja aos melhores velocistas. Assistia na TV por esses dias a um bom programa em que se questionava o fato de meninos e meninas serem submetidos a competições esportivas cada vez mais cedo. Isso me lembrou a Cortina de Ferro e sua máquina de fazer esportistas cientificamente - muitos formados à base das mais pesadas drogas - como propaganda dos governos comunistas em tempos de Guerra Fria. Propaganda de governo... alguém aí pensou em Copa 2014 e Rio-2016? Bom, neste programa vi e ouvi as maiores sandices de pseudo-técnicos e pais sobre os “valores” que são passados para seus pupilos nos treinos e jogos. Muitos desses “ensinamentos” passados aos berros e com não poucos palavrões. Nada surpreendente, basta ir a um jogo qualquer de futebol com meninos de 10, 11 anos (ou até menos), assistir a uma inocente aula de escolinha ou mesmo ir a uma festa junina de colégio. Prestem bastante atenção no comportamento dos pais e entenderão. Está aí o embrião da sociedade que vem sendo construída nos últimos 20, 30 anos, com os gigantescos muros da competitividade, que fazem do outro um inimigo, não um adversário, nem mesmo o próprio companheiro de equipe. Esses pais ensandecidos não matriculam seus filhos para praticarem um esporte, mas para se tornarem atletas, muitas vezes aqueles que eles não conseguiram ser por algum motivo qualquer. Desde que nasce, o pimpolho já é adestrado a pensar em vencer, somente em vencer. E a odiar ou desprezar quem perde. Ele já nasce se profissionalizando, já se preparando para o vestibular, aprendendo todos os truques e macetes para ser um vencedor. Custe o que custar. Aprender a saber perder – e também a vencer com dignidade - a respeitar o companheiro e o adversário, o árbitro, os torcedores, ter liberdade para criar fora dos adestramentos mecanizados dos treinamentos - que devem ser repetidos nas partidas - nada disso é possível. As quadras que abrigam jogos infantis de futsal e basquete, por exemplo, são um microcosmo desta sociedade que passo a passo – cada vez mais velozes e violentos – caminha rumo à imbecilidade e à estupidez total. Crianças são xingadas por treinadores e pais – às vezes os seus próprios, às vezes de outros, companheiros e adversários – todos ávidos por uma vitória redentora para suas vidinhas abaixo de medíocres. Uma companhia de insanos! A “filosofia” é preparar o atleta, o profissional; a pessoa, o indivíduo, o cidadão, não importam. E essa criança, mesmo que não se torne no futuro um atleta profissional, será um ser competitivo ferrenho em todos os setores de sua vida, sem admitir derrota. Qualquer que seja ela – uma demissão, uma paixão frustrada, um gol contra numa simples pelada de fim de semana – será uma frustração inconcebível, que o levará à depressão ou à violência, certamente regada a entorpecentes dos mais variados tipos. Que ironia, lembrei-me da Cortina de Ferro, mas é a sociedade estadounidense, de tantos jovens franco-atiradores, o nosso principal modelo. Há sempre maus elementos à espreita nos dois lados dos muros.
FLAMENGO 6 x 0 BOTAFOGO - CAMPEONATO CARIOCA DE 1981
No dia 8 de novembro de 1981, o Flamengo que pouco mais de um mês depois ganharia o Mundial Interclubes em Tóquio realizaria talvez a sua mais épica jornada, também num domingo, no Maracanã. O Dia da Vingança, como ficou conhecido pela devolução dos engasgados 6 a 0 de 1972 ao Botafogo de Jairzinho foi completo quando o já veterano Furacão da Copa de 70 entrou em campo no segundo tempo. Ele quase estragou a festa rubro-negra e a minha previsão feita num bolão do colégio um mês antes (tenho pelo menos quatro testemunhas que podem confirmar a minha façanha de vidente.rsrs). Foi a única vez que chorei no Maracanã. Não foi a conquista de um título, mas foi bem mais, uma aula de futebol e de respeito à torcida, que implorava por seis. Se fosse sete, oito, não valeria, nem 6 a 1, como o time da Gávea conseguiu fazer quatro anos depois. Tinha de ser igual a 1972, um patrimônio que os alvinegros em tempos de jejum de títulos ostentavam com merecido orgulho em todos os jogos contra o Fla. Pena que não encontrei vídeo, somente o áudio dos 6 a 0 do Botafogo, que não assisti nem ouvi e só fiquei sabendo quando comecei a freqüentar o Maracanã, mas que também deve ter sido uma tarde gloriosa para os torcedores alvinegros e para o timaço que tinham, até porque foi num 15 de novembro, data de aniversário do Flamengo. Não quero que este espaço seja reservado para manifestações clubísticas, apenas mostrar a arte do futebol e dar um depoimento pessoal sobre a minha relação com o jogo ou a época em que ele ocorreu. Desfrutem lá embaixo a aula de bola de Zico e Cia, com as belíssimas imagens do inesquecível Canal 100. Ficha técnica da partida 08/11/1981 - Maracanã - Rio Flamengo 6 x 0 Botafogo Juiz: Édson Alcântara do Amorim (MG) Renda: Cr$ 15.031.600 Público: 69.051 pagantes Gols: Nunes 7, Zico 27, Lico 33 e Adílio 40 do 1o. Zico (pênalti) 30 e Andrade 42 do 2o; Cartões Amarelos: Júnior e Perivaldo Flamengo: Raul, Leandro, Figueiredo, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Técnico: Paulo César Carpegiani Botafogo: Paulo Sérgio, Perivaldo, Gaúcho, Osvaldo e Jorge Luiz; Rocha, Mendonça e Ademir Lobo; Édson (Jairzinho), Mirandinha e Ziza. Técnico: Paulinho de Almeida.
Escritor e jornalista. Autor da peça "Sentença de Vida", encenada entre março de 2002 e maio de 2003, sob direção de Cristine Cid, com Denize Nichols. Destaque especial em três categorias do IV Concurso Literário "A Palavra do Século XXI" (2001), com a poesia "Oferenda (ou Canção de um Ser Dilacerado)", o conto "A Foto" e a crônica "As Velhas Senhoras do Campo de Sant'Anna". Autor do livro de poesias "Profano Coração", lançado em 20 de julho pela Editora Multifoco.
Folheie cada página desta obra, densa e suave - virtual apenas no meio - como quem cuida de uma flor carnuda e delicada. Não, não se atenha à primeira página, às primeiras palavras. Aqui não há ordem cronológica. Não perca uma palavra, uma entrelinha, uma sensação sequer! A você que se dispôs a vir a esta página, muito obrigado pela sua visita, espero que volte outras vezes e deixe seus comentários quando achar conveniente. Neste espaço pretendo publicar meus textos e mostrar um pouco do que aprecio. Fique à vontade, mas não abuse, por favor! Blog no ar desde o dia 17/3/2008. Obs.: Todos os textos publicados neste espaço são de autoria de Eduardo Lamas Neiva e estão registrados na Fundação Biblioteca Nacional.
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Francis Bacon
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Astillero Tango
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PABLO NERUDA
Tu eras também uma pequena folha que tremia no meu peito. O vento da vida pôs-te ali. A princípio não te vi: não soube que ias comigo, até que as tuas raízes atravessaram o meu peito, se uniram aos fios do meu sangue, falaram pela minha boca, floresceram comigo.
CECILIA MEIRELES
Canção Excêntrica
Ando à procura de espaço para o desenho da vida. Em números me embaraço e perco sempre a medida. Se penso encontrar a saída, em vez de abrir um compasso, projeto-me num abraço e gero uma despedida.
Se volto sobre o meu passo, é já distância perdida.
Meu coração, coisa de aço, começa a achar um cansaço esta procura de espaço para o desenho da vida. Já por exausta e descrida não me animo a um breve traço: - saudosa do que não faço, - do que faço, arrependida.
CRUZ E SOUZA
Vida Obscura Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro, Ó ser humilde entre os humildes seres. Embriagado, tonto dos prazeres, O mundo para ti foi negro e duro.
Atravessaste no silêncio escuro A vida presa a trágicos deveres E chegaste ao saber de altos saberes Tornando-te mais simples e mais puro.
Ninguém te viu o sentimento inquieto, Magoado, oculto e aterrador, secreto, Que o coração te apunhalou no mundo.
Mas eu que sempre te segui os passos Sei que a cruz infernal prendeu-te os braços E o teu suspiro como foi profundo!
MILTON NASCIMENTO E RUY GUERRA
E DAÍ?
Tenho nos olhos quimeras Com brilho de trinta velas Do sexo pulam sementes Explodindo locomotivas Tenho os intestinos roucos Num rosário de lombrigas Os meus músculos são poucos Pra essa rede de intrigas Meus gritos afro-latinos Implodem, rasgam, esganam E nos meus dedos dormidos A lua das unhas ganem E daí?
Meu sangue de mangue sujo Sobe a custo, a contragosto E tudo aquilo que fujo Tirou prêmio, aval e posto Entre hinos e chicanas Entre dentes, entre dedos No meio destas bananas Os meus ódios e os meus medos E daí?
Iguarias na baixela Vinhos finos nesse odre E nessa dor que me pela Só meu ódio não é podre Tenho séculos de espera Nas contas da minha costela Tenho nos olhos quimeras Com brilho de trinta velas E daí?